Existência
Os fios invisíveis que nos entrelaçam
Há noites em que a lua parece cheirar a mel. Não é metáfora — é lembrança. É o corpo reconhecendo aquilo que a mente insiste em esquecer: que estamos costurados uns aos outros por fios que nenhum microscópio alcança.
Passei anos procurando respostas em laboratórios, em livros, em conferências. Quanto mais eu procurava, mais o silêncio da floresta me respondia. Não com palavras, mas com aquela certeza antiga de que pertencer é um verbo que se conjuga no plural.
Zezé Rezadeira dizia: só enxerga as árvores tristes quem reza para a bisavó materna. Eu ria. Hoje entendo. Não é sobre religião — é sobre memória. É sobre reconhecer que há em nós uma linhagem de olhos que nos precederam e que nos ensinaram, sem palavras, a ver.
Talvez o santuário não esteja num lugar. Talvez ele viva no gesto de estender a mão, de rezar por quem partiu, de acender uma vela numa noite qualquer só porque sim. O invisível é o mais sólido que existe — sustenta o visível inteiro.
